Felizes Anos de Castigo de Fleur Jaeggy
Assumo que talvez não tenha capacidade para compreender Felizes Anos de Castigo. Entre tantas apreciações positivas com certeza será falha minha, pois que eu não encontro naquelas páginas nada do que os restantes leitores absorveram nem a história que a sinopse me indica ali estar.
Julguei que fosse encontrar algo semelhante, mesmo que levemente, a Teresa e Isabel de Violette Leduc.* Afinal a história retrata exactamente uma relação queer/lésbica entre duas jovens que frequentam um colégio interno. O que encontrei foi tão vago, tão pobrezinho, que me arrastei na leitura durante semanas, aguardando uma espécie de revelação qualquer que me fizesse compreender seja lá o que for que há para compreender neste livro.
Portanto há uma criança, num colégio interno, que estabelece uma ligação (aparentemente diferente) com outra criança. Não sei o que há de queer nesta relação, parece-me quase uma simples amizade em que uma das partes é ligeiramente obcecada pela outra, no sentido da observação e idolatração, tão típico das idades retratadas. No entanto, por pouco ou nada acontecer no decorrer da história, haverá margem para as extrapolações que o leitor quiser e bem entender.
Apenas no final, quando as personagens já são adultas, me interessei um pouco pelo seu destino. Não o suficiente para salvar a leitura. O tempo que perdi neste livro e que nunca recuperarei...
* Violette Leduc foi uma das melhores descobertas da minha vida. Em 2013 vi o filme Violette e fiquei muito curiosa sobre a obra da escritora. Infelizmente os seus livros publicados em Portugal foram censurados pelo Estado Novo e a única edição relativamente recente que ainda se encontrava à venda era o Teresa e Isabel da Relógio D'Água, entretanto esgotado, que na realidade corresponde a uma parte de outro livro seu. Nesta obra encontramos um relato autobiográfico dos anos de juventude de Violette passados num colégio interno, da descoberta da sexualidade e dos relacionamentos lésbicos entre as alunas. A escrita é simplesmente maravilhosa, lindíssima e intensa. Torna-se impossível ignorar que estamos perante textos que reflectem as existências e vivências da própria escritora, o que aumenta o fascínio em torno das suas criações. Tenho também os livros "A Bastarda" e "A Caça Ao Amor" (ainda não li), comprados em alfarrabistas. Aguardo ansiosamente que alguma editora pegue na sua obra completa e a publique. Já é mais que tempo.