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02
Fev25

A Baleia de Paul Gadenne

Cláudia F.

No natal presenteei-me com livros da Antígona, aproveitando uma baixa de preços que a editora aplicou umas semanas antes. Não é que seja uma novidade oferecer-me livros nessa época, nunca tinha era ocorrido serem todos da mesma editora. O livro A Baleia foi o primeiro a ser lido e não podia ter corrido melhor.

Nas cerca de 40 páginas acompanhamos Pierre e Odile numa caminhada, um passeio até à praia para verem a carcaça de uma beleia branca que deu à costa e ficou a decompor-se na areia. Perturbador? Fascinante? Profético? Que significado retiram as duas personagens da morte daquele gigante dos mares? É uma bonita e dura reflexão sobre a morte, o ciclo que se fecha, ao qual nenhum ser escapa. Foi uma leitura muito satisfatória. 

Entretanto, ao procurar mais informações sobre o escritor (que faleceu aos 49 anos vítima de tuberculose, tendo passado os últimos anos em sanatórios e quartos alugados, de onde aliás terá escrito grande parte da sua obra) cruzei-me com uma curta baseada neste seu texto. Enquanto lia pensava que daria um belo filme, o ambiente em que as personagens se movem é bastante cinematografico e é uma pena que a curta não esteja disponível, mas a julgar pelas fotografias creio ter sido uma adaptação bem feita. Aguardo com esperança que talvez vá parar ao youtube, um dia.

Pequenos livros, grandes histórias.

13
Jan25

A Voz das Mulheres de Miriam Toews

Cláudia F.

Quando sei que um filme é baseado num livro tendo a priorizar a leitura em vez do cinema. O problema é, pois claro, quando não o sei. Ouço falar bem dele, a história parece-me interessante e vejo. Só posteriormente, ao pesquisar qualquer coisa, é que me apercebo que existe livro. O mal está feito. Dificilmente a leitura me vai saber tão bem quando já conheço a história. Foi o caso com A Voz das Mulheres da escritora canadiana Miriam Toews.

Não se tratando de uma má leitura, perdeu o encanto por já conhecer o desenrolar da história e o seu desfecho. A força da narrativa está no desenvolvimento do pensamento crítico do grupo perante a realidade que o atormenta e a exploração desta evolução no filme foi muito mais intensa e interessante, em comparação ao que senti com a leitura. A quantidade de personagens é confusa e as suas particularidades individuais perdem-se no formato da narração. Estes apontamentos menos bons não invalidam a qualidade da historia que nos é apresentada. A reflexão proposta sobre as seitas religiosas, principalmente na anulação do individuo através da manipulação que se propaga de geração em geração, ampliando a repressão que se reflecte nos mais pequenos actos diários. Um grupo de homens, de diversas idades, droga e viola mulheres e crianças dentro da colónia, durante anos e com o conhecimento de outros homens. As mulheres organizam uma assmbleia onde discutem o seu futuro. Ficar, fugir ou lutar. Alterar o funcionamento da comunidade, aceitar os abusadores, resignar-se, expulsar os homens, matá-los, abandonar tudo o que sempre conheceram e iniciar uma nova vida. É uma discussão rica em possibilidades e Toews trabalha muito bem os conflitos que advêm de cada decisão.

Em resumo: leitura mediana, ideia interessante, narração q.b. aborrecida, execução mais bem conseguida no filme. E por a realizadora ser a magnifica Sarah Polley, aconselho fortemente que vejam o filme A Minha Vida Sem Mim.

08
Jan25

Um Artista do Mundo Transitório de Kazuo Ishiguro

Cláudia F.

Nunca tinha lido Kazuo Ishiguro. Dos seus trabalhos apenas conhecia a adaptação de Nunca Me Deixes. Foi sugestão do clube de leitura que frequento ler Um Artista do Mundo Transitório (ou Flutuante), o livro que me calhou era semelhante a este, portanto bem velhinho. Este ano a temática do clube de leitores não foi propriamente apelativa (para o meu gosto), sendo esta leitura do ano a única que realmente me entusiasmou.

Seguimos Ono, um velho artista, pintor amplamente admirado e reconhecido, que quando se apresenta a possibilidade da sua filha mais nova vir a ser pedida em casamento, inicia um processo de auto-análise e reflexão sobre o passado e as suas acções em nome do nacionalismo japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Eu nada sabia sobre este livro, ou sobre o seu escritor, para ser sincera sempre me tinha passado ao lado, pelo que iniciei a leitura com baixíssimas expectativas. Há melhor que ser positivamente surpreendida e, semanas após o final da leitura e entre outros livros entretanto lidos, ainda dar por mim a reflectir na história de Ono? Não, não há. É deste tipo de coisas que se fazem os grandes livros. Para mim, claro. Outros terão definições diferentes do que é que torna uma leitura uma experiência memorável.

Então vamos mergulhando na sociedade japonesa, na forma como a ocupação (no pós-guerra) e a influência americana se misturaram no ideal japonês, nos traumas de guerra que marcaram gerações, em como os ideais nos moldam, permanente ou momentaneamente, nas acções que levamos a cabo em prol de valores superiores e como lidamos (ou não) com as consequências das nossas escolhas e posições políticas. É muito bonito a forma como, tal como numa pintura, Kazuo nos oferece diferentes tonalidades, contrastes e perspectivas. Compreendi que a leitura que eu fiz não foi exactamente a mesma que outros leitores do clube fizeram - alguns focaram-se mais na relação avô-neto-família, outros na sociedade japonesa (tão distante da nossa), outros na arte japonesa (como se desenvolvia a relação entre os pintores e as obras, os mestres, etc). Eu foquei-me por completo na questão política, sempre com a curiosidade de perceber o que temia Ono ter feito no passado que colocasse em causa o bom casamento da filha. Depois, a forma como Ono lida com a culpa (a negação, a desvalorização dos seus actos e decisões), o peso do passado e como sempre se reflectirá no futuro. É delicioso o jogo que Kazuo estabelece com o leitor, ao colocar perante nós um idoso, aparentemente sério, respeitoso, inteligente, que nos manipula até ao final do livro, colocando a sua velhice e falta de memória sobre o passado em perspectiva, diminuindo o seu papel nas situações mais críticas. Ele afirma sem afirmar, conta sem contar. E aos bocadinhos, exigindo bastante atenção, vamos percebendo a complexidade da personagem de Ono, que nada mais é que a representação de um certo Japão, que existiu numa época muito particular mas que se perpétua na história da humanidade. Somos mesmos uns seres estranhos.

Verdadeiramente genial. Um favorito.

Deixo aqui uma entrevista de 1989 a Kazuo Ishiguro que muito gostei de ler.

 

 

03
Jan25

O Quinto Filho de Doris Lessing

Cláudia F.

Depois de ser mãe fui-me cruzando com algumas referências ao livro O Quinto Filho em textos que lia e que continham reflexões sobre maternidade e pós-parto. Em Novembro confirmei que existia na biblioteca que frequento e requisitei.

Foi um dos melhores livros que li em 2024.

Fazendo uma leitura mais literal ou abstracta sobre Ben (o quinto filho), o que ele é e o que representa, percebemos que este é um óptimo exemplo de como um livro pode conter muitos livros diferentes dentro, suscitando várias interpretações e outras tantas reflexões. Esta característica nem sempre me agrada, mas neste caso contribuiu positivamente. A exposição da maternidade, desde o lado mais agradável até ao detestável, como a depressão na gravidez e no pós-parto, a dificuldade no elo entre mãe e recém-nascido, a procura na ciência de respostas e soluções quando elas são inexistentes ou incorrectas, até à ideia de que os bebés/crianças são como que produtos numa linha de produção, todos idênticos e sem personalidade, enfim, é tanta a exposição concreta e realista do universo da maternidade, que só quando Ben cresce e começam a ocorrer algumas situações é que me inteirei que estava a ler ficção cientifica. Como já tinha procurando informações sobre a autora, sabia que se identificava como uma escritora de ficção cientifica antes de qualquer outro género tendo escrito várias obras que se enquadram nesse formato, portanto não foi uma surpresa e aceitei de bom grado este caminho que a história começou a percorrer e que se manteve cada vez mais vincado até ao final.

A aceitação de diferentes existências é, para mim, o ponto chave deste livro. Começando com as críticas que Harriet e David sofrem por decidirem ter uma grande família, parecendo que são adultos incapazes de pesar os prós e contras de tal decisão - o que se vem a comprovar ao dependerem do apoio financeiro do pai de David mas também de auxilio no dia-a-dia da mãe de Harriet, que rapidamente se transforma numa governanta dividida entre duas casas - passando pelo desconforto que Harriet sente em torno da sobrinha com deficiência até ao expoente máximo que é a chegada de Ben, atingindo e modificando todo este mundo pequeno-burguês. Com a passagem dos anos as diferenças de Ben vão-se acentuando, desde o tamanho, às incapacidades do foro cognitivo e emocional, passando por atitudes violentas e grande agressividade. Não sabemos o que Ben é, nem sei se é suposto encaixarmos a personagem em alguma definição clínica, nem ainda se alguma parte da sua personalidade não foi fomentada por esta inadaptação e rejeição desde o nascimento.

Ben é diferente e não corresponde às expectativas (familiares e sociais), ninguém o aceita como ele é, com excepção do grupo de jovens delinquentes alienados com quem cria uma estranha amizade.

Há algo de bonito na determinação de Harriet em, como mãe, fazer todos os esforços, por mais estranhos e loucos que sejam, para manter Ben sob a sua protecção e vigilância, com todas as consequências que tal decisão acarreta, posicionando-se contra David e a sua solução de abandono.

Uma escrita limpa, sem adornos ou distracções, exactamente como eu gosto.

Aqui um texto interessante sobre pessoas com deficiência e a necessidade de lhes garantir uma vida digna.

 

 

09
Dez24

Mrs. Caliban de Rachel Ingalls

Cláudia F.

Então não é que Mrs. Caliban se transformou em favorito, assim, como quem não quer a coisa? Talvez o surrealismo literário não seja, afinal, tão problemático quanto eu julguei. Acho que o que não aprecio não é tanto o irrealismo ou a fantasia, mas sim a escrita que torna impossível ao leitor distinguir o que é factual (dentro da história) e o que é ilusão, sonho, imaginação. Confusa, eu? Sim. Portanto, ler este tipo de obras pode ou não ser uma boa escolha e neste caso correu muy bem.

Publicado em 1982, retrata a vida de uma mulher, doméstica e deprimida, que reencontra o sentido da vida ao acolher um ser híbrido (tipo homem-aquático-lagarto), após este escapar de uma existência de torturas e experiências laboratoriais. Relações infelizes, traições, amargura, injustiça, discriminação, intolerância, aprendizagem, aceitação, são alguns conceitos e ideias que estão presentes nesta história e que a tornam completamente relevante e intemporal. Não é sem razão que esta obra é considerada uma obra-prima dentro do género.

Até certo momento questionei se Dorothy estaria a alucinar, uma extensão do trauma pelo luto recente, e se Larry efectivamente existiria ou seria apenas um escape da sua mente perturbada pela infelicidade extrema. Esta dúvida fez-me ter ainda mais interesse em Dorothy, na evolução da sua personagem e do seu psicológico. Apenas quando Larry interage com outras personagens abandonei a ideia da loucura, sem perder o foco no desenrolar da relação entre os dois. A intensidade vai aumentando conforme vamos avançando na leitura, o tom de tragédia que se avizinha e a atmosfera quase claustrofóbica que envolve Larry - em liberdade sem ser livre - e Dorothy - condicionada e alienada - contribuem para virar página após página, cada vez com mais rapidez, para chegar à conclusão desta aventura bonita e profundamente triste.

Uma novela bastante cinematográfica. Lembrei-me muitas vezes de Eduardo Mãos de Tesoura. As acções rápidas, os ambientes repetitivos e sem grandes descrições, poucas personagens e bem caracterizadas. A leitura desenrolou-se dentro da minha cabeça como se estivesse a ver um filme e estava bastante entusiasmada, julgando que de certeza existiria já alguma adaptação. Acontece que não e nem sequer se atrevam a sugerir que este é parecido, dá-me já um ataque (está na minha lista dos piores filmes de sempre). Imaginei Larry igual ao Monstro da Lagoa Negra. Não há ser meio-lagarto-meio-peixe mais icónico que ele:

Continuo a ficar maravilhada com esta capacidade, que alguns escritores têm, de criar algo complexo numa dimensão tão curta (são 128 páginas). Um livro pequenino mas grandioso que, em aparente simplicidade, se solidifica e cria uma trama astuta sobre relações e comportamentos. Rachel Ingalls escreveu várias novelas que não se encontram traduzidas e publicadas em Portugal, sendo Mrs. Caliban a única excepção.

Episódio do programa As Palavras do Mundo da RTP sobre Mrs. Caliban e artigo porreiro aqui.

 

18
Nov24

O Vinho da Solidão de Irène Némirovsky

Cláudia F.

A minha última experiência com Irène Némirovsky não foi propriamente memorável. Não desgostando, porque é impossível deixar de apreciar, ocorreu-me constantemente que estava a ler ecos de outras obras suas. Os temas presentes são repetitivos, reforçados pela componente auto-biográfica: jogos e conflitos, personagens realistas fruto de uma sociedade vazia de princípios e iludida pelo capital, alienação parental e famílias desestruturadas. Tal como em O Baile ou Moscas de Outono, a escritora narra a fuga da família Karol do Império Russo para a França e encontramos-nos novamente perante o mundo judaico, com a figura paterna ligada aos negócios e fonte de riqueza, contrastando com a figura materna cuja maior preocupação é o culto ao corpo e jogo de sedução, ambos completamente desconectados da filha Helena, a nossa narradora, que acompanhamos ainda criança e seguimos até à fase adulta.

A forma como Irène explora o elo materno, ou a falta dele, é realmente brilhante. Acho-a comparável a Maria Archer, seja porque ambas introduzem nas suas obras muito daquilo que foram as suas vivências e experiências, ou pela crítica à burguesia e à falsa moralidade, ambientes em que se moviam na mesma época (ainda que em países e culturas diferentes). Em O Vinho da Solidão gostei particularmente da reflexão sobre a influência e imitação, na base do ódio, alimentando um ciclo doentio de comportamentos e acções. Hélène odeia tanto a mãe que acabará consumida pelo desejo de vingança, transformando-se, em certos aspectos, na pessoa que mais despreza e da qual se procura distanciar e superar.

Não deixa de ser curioso reflectir sobre a obra e a vida de Irène Némirovsky. Silenciada pela comunidade intelectual judaica e fortemente criticada pelos sionistas após a sua morte, associou-se a jornais de extrema-direita e ultra-nacionalista franceses, que a aceitavam apesar da sua herança judaica (exactamente pela forte crítica e caracterização do judeu rico); estas amizades não foram suficientes para se salvar de Auschitwz, onde acabou por perder a vida, vitima da propaganda anti-judaica que o seu núcleo de amizades ajudava a difundir. Há aqui um certo paralelismo, não há? Hoje em dia vemos os sionistas a desfilar lado a lado com neo-nazis, a estabelecer parcerias com partidos de extrema-direita. O estado que condenou as suas obras é o mesmo que aplica com sucesso aquela limpeza étnica que vitimou Irène (e tantos outros).

São assim os dias que correm. O que pensaria Irène sobre isto se estivesse viva? Melhor, o que escreveria?

12
Nov24

A Menina dos Anos de Haruki Murakami

Cláudia F.

Tenho quase a certeza que já li Murakami apesar de não me lembrar do nome do livro, tão pouco da história. Sei que não achei grande espingarda e por isso nunca mais senti necessidade de ler outros trabalhos do escritor. No entanto cruzei-me com este A Menina dos Anos num supermercado e, estando a um preço interessante, decidi levá-lo para casa.

Não sou a maior adepta de surrealismo na literatura. Dificilmente aprecio o suficiente para daí extrair algo de produtivo. Por norma as leituras que faço acabam por ter uma avaliação mediana. É um universo que não me fascina particularmente, falta-me a paciência para apreciar o abstracto, entrar em mundos alternativos. Tenho imensa dificuldade em desapegar-me do realismo, coloco em causa o que me vai sendo relatado na leitura e perco o interesse na história. São manias que tenho como leitora. Com certeza haverá pessoas que adoram estas características que em mim se traduzem numa alta probabilidade de não ler um escritor cuja marca é o surrealismo.

Neste conto existe um senhor velho de classe alta (meio extravagante) e uma empregada de restaurante muito jovem, um aniversário e um pedido de desejo. Nunca chegamos a saber que desejo foi pedido e/ou se foi concretizado. É uma história estranha. Até gostei mas não sei explicar porquê. Não faço ideia se compreendi o fundo, se é que existe algum fundo. Quero pensar que não se trata de uma história superficial sobre a força de vontade, o destino e coincidências da vida. Já li várias opiniões diferentes, porém concluo que ao ser tudo tão vago são os leitores que através das suas interpretações lhe acrescentam algum sentido - o que não deixa de ser também uma forma de experienciar a leitura. 

As ilustrações de Kat Menschik são espectaculares e um forte contributo para a criação da atmosfera misteriosa em torno das personagens. É um acrescentar de embelezamento.

12
Out24

A Volta no Parafuso de Henry James

Cláudia F.

O filme Os Inocentes é um dos meus filmes de terror favoritos. Desconhecia que era baseado no livro A Volta no Parafuso, do qual já muito tinha ouvido falar por ser considerado um marco dentro do género terror. Eis que há uns anos fez-se luz neste cérebro e acabei por perceber que o livro que queria ler era o mesmo que dera origem ao filme. Se por um lado fiquei muito entusiasmada por outro pensei "bem, já conheço a história, talvez o livro não funcione tão bem". Estava certa. 

Como conhecia a história e a tinha bem presente, o efeito surpresa foi à vida; foi quase como uma releitura. Estava a ir a lugares que já conhecia, sabia o que ia acontecer em cada capitulo e o clímax final não foi na realidade um clímax, mas antes a recordação do final d'Os Inocentes, a preto e branco e tudo.

Adianta sequer escrever sobre o que trata o livro? É uma mulher que inicia um trabalho como educadora/ama numa mansão de um homem muito rico, tendo à sua tutela duas crianças. Há muito nevoeiro e bosques, um lago, e começam a acontecer coisas estranhas envolvendo as crianças, deixando as mulheres adultas entre o paranormal e a loucura. 

Claro que este clássico merece ser um clássico, é uma história espectacular sobre fantasmas daí continuar a inspirar tantos filmes e séries - a última que me recordo é da Netflix: A Maldição da Mansão Bly.

O mal está em mim e não no Henry James. Aconteceu-me o mesmo quando li Frankenstein de Mary Shelley. Nada a apontar aos livros. Foram, apenas, leituras que não funcionaram para mim.

31
Jul24

Vista Chinesa de Tatiana Salem Levy

Cláudia F.

Tinha Vista Chinesa debaixo de olho desde a sua publicação. A temática interessa-me muito e sabia que mais cedo ou mais tarde acabaria por lê-lo, comprado ou através da biblioteca. Foi por isso uma felicidade imensa quando o recebi a partir do clube de leitura da Greta Livraria. Este não ficou a ganhar pó na estante aguardando a sua vez, pelo contrário, passou à frente dos seus pares e foi lido pouco tempo após me ter chegado.

A minha opinião sobre esta leitura não só é igual à da grande maioria dos leitores, como me parece que pouco ou nada acrescenta à dimensão do que se pode ou não retirar desta história. Ou seja, aquilo que é narrado vale por si só a leitura. O que para mim tem imenso valor. Às vezes apanho no Goodreads comentários a livros biográficos ou que relatam uma história real, que apontam a dificuldade que o leitor tem em "avaliar" a leitura. Isto faz e não faz sentido para mim; o leitor sente-se limitado pela percepção que se pode ter da avaliação feita, como se desvalorizasse a realidade relatada. Não queremos que outros pensem que somos um cubo de gelo que não simpatiza com o sofrimento alheio. No entanto, ao avaliar a leitura, não estamos necessariamente a avaliar a experiência que o autor/individuo viveu, mas sim como o livro funcionou connosco, o que nos transmitiu, a escrita, etc., um conjunto de particularidades a que cada leitor poderá dar mais ou menos valor. Também não somos críticos literários, não temos assim tanta responsabilidade. Eu pelo menos não me coloco nesse lugar. E falo disto porque, em Vista Chinesa, terminei completamente incapaz de analisar aquelas tais particularidades, tão envolvida que estava na história, sentindo apenas que me encontrava perante um livro do caraças. E não há nada que pague esta sensação maravilhosa.

Li-o num domingo à tarde. É um livro curto, penso não chegar às 100 páginas. A naturalidade e o realismo com que a narrativa se desenrola contribuem para uma experiência extremamente visual, mesmo sem ter grandes descrições do ambiente em que as cenas se desenrolam. Toda a história funcionou, dentro da minha cabeça, como um documentário. Para quem, como eu, já ouviu e leu relatos de violações e abuso sexual em número suficiente (fãs de true crime compreenderão) antecipa facilmente os passos da narradora, as dificuldades e os traumas. É aqui que a história me ganha: na dureza dos pormenores, da realidade retratada, que infelizmente, nem sempre encontro com a mesma honestidade noutras obras. Por isto é um livro necessário. Não tenho grande esperança na humanidade pelo que temo que seja ainda necessário por bastante tempo*.

Mais um livro curto que se revela um favorito. Estou a desenvolver uma preferência descarada por livros pequenos. 

* Relatório da UMAR (2022) sobre violência sexual em Portugal.

 

 

19
Jul24

Vinte Anos de Manicómio de Carmen de Figueiredo

Cláudia F.

Já aqui mencionei o meu interesse em ler escritoras portuguesas. Há uns anos comprei naquelas feiras nas estações de metro, o livro 100 Portuguesas com História de Anabela Natário que desde então está na minha mesa de cabeceira. É a leitura mais demorada de sempre no meu reportório. Entre livros, principalmente naqueles que me deixam inquieta após finalizar a leitura, costumo ler algumas páginas do 100 Portuguesas. Fico sempre impressionada com a capacidade de: 1. preservar-se informação ao ponto de 2. uma investigadora conseguir reuni-la e dar-nos a conhecer existências fascinantes que para o cidadão comum são absolutamente desconhecidas. 

Portanto, quando digo que quero descobrir mais escritoras portuguesas são as escritoras desconhecidas ou pouco recordadas que me interessa particularmente ler. Carmen de Figueiredo é o pseudónimo de Carmelinda Miolet Morena de Figueiredo, nascida em 1916 e falecida a 2006. Escreveu quinze romances, três livros de contos e uma novela.

Eu tenho três: Vinte Anos de Manicómio (colecção Público), Colégio de Rapazes (1955) e O Muro de Cristal (1958). Ainda só li o primeiro e foi uma leitura agradável. A escrita é muito acessível, sem floreados aborrecidos, com umas pitadas de sarcasmo, crítica social e um certo erotismo que valeram à escritora a censura da PIDE.

"Tenho a honra de solicitar de V. Exª. se digne mandar apreender o livro intitulado “VINTE ANOS DE MANICÓMIO”, da autoria de Carmen Figueiredo, editado pela “Empresa Literária Universal”, Travessa da Era, nº 17, em Lisboa, por ter sido proibido de circular no País, o que desde já muito agradeço.

A Bem da Nação

Lisboa, 31 de Janeiro de 1952"

Os senhores do regime ficaram desagradados por uma mulher ousar escrever sobre sexo, infidelidade e coisas assim, ainda por cima num estilo mais "masculino".

"Parece-me condenável este romance pelos trechos (por vezes páginas inteiras) de realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher."

A história começa com Bento e Lídia, que se mudam para Lisboa para explorar uma mercearia e aí garantir uma educação adequada e um futuro digno à sua filha Lourdes. Esta está mais para mulher independente do que doce e recatada do lar. Representa ainda a mulher sexual e erótica, muito longe da representação que o regime defendia, da mulher casta, obediente, assexual, materna. A figura da mulher é desconstruída ao associar-lhe comportamentos amplamente aceites/justificados no género masculino mas negados no feminino. Por exemplo, Bento é infiel à sua esposa e incapaz de ter sexo com ela, no entanto recusa que a filha Lourdes mantenha as mesmas praticas (recusa de sexo ao esposo mantendo relações extraconjugais) pelo simples facto de ser mulher. A infidelidade e desapego de Lourdes acabam por conduzir o marido João Lúcio a um estado de doença física e mental, sendo posteriormente internado num manicómio, falsamente acusado de loucura.

A personagem de João Lúcio é curiosa, tão ao mais que a de Lourdes. A autora atribui-lhe características que estavam quase exclusivamente associadas à condição feminina: o histerismo, a depressão, ataques de pânico, insónias...É enclausurado durante vinte anos numa "casa de loucos" para que a sua esposa consiga viver os seus romances sem a opressão do matrimónio. Só consegue a liberdade fingindo a própria morte e mesmo livre não supera a existência sofrida, optando pelo suicídio.

Estas dinâmicas são por isso muito interessantes, principalmente olhando para a época em que a escritora viveu e publicou.

Não posso, ainda assim, dizer que considero este livro uma obra extraordinária. As personagens são rasas, não apresentam qualquer conflito interior, permanecem iguais do início ao fim do livro. Não há desenvolvimento nem picos de intensidade. Faltou alguma complexidade na estruturação da história, mais zonas cinzentas para puxar o realismo.

Os únicos livros que foram editados recentemente, através das colecções Censura no Feminino (2021) e na Biblioteca da Censura, são Vinte Anos de Manicómio e Famintos. Com uma produção tão numerosa, que justificação haverá para não se investir na publicação dos seus livros? O que leva a que nenhuma editora portuguesa o faça? Tirando os que, como eu, compram em alfarrabistas e tem a sorte de ainda encontrar alguns velhos exemplares, tão pouco têm a oportunidade de conhecer o seu trabalho. E sim, novamente, existem bibliotecas. Na minha rede, por exemplo, há cinco livros da autora para requisição. Cinco livros entre dezanove obras. É uma oferta ainda assim limitada. Estas duas opções (alfarrabistas e bibliotecas) partem sempre da procura do leitor. É preciso que o leitor conheça para que procure. E como se conhece uma escritora apagada, sobre a qual pouco se sabe? Eu própria só chego a estas escritoras após primeiro me interessar, procurar informações, listar obras e de tempos a tempos comprar os livros possíveis, mediante a oferta no mercado alfarrabista.

Repito-me: são escritoras que viram os seus trabalhos retirados de circulação pela ditadura, que colocaram em causa a sua própria integridade para escreverem estas histórias. Décadas depois: ninguém as conhece. Não são lidas. Não são estudadas. Tão pouco celebradas pela sua coragem de tentar sobressair numa área de homens, onde homens decidiam o que elas podiam ou não criar. É de lamentar.

Trabalhos muito interessantes sobre a escritora e as suas obras Vida de Mulher aquiFamintos aqui.

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