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15
Mai24

Ela bateu às portas da vida

Cláudia F.

São poucos os escritores que me fascinam ao ponto de querer ler toda a sua obra. O tempo é curto, livros são demasiado caros e nem sempre existem na biblioteca - o que me dificulta a exploração. No entanto, quando fico verdadeiramente empolgada faço questão de comprar, não apenas pela posse material do livro, mas pela satisfação de ler um/a escritor/a que já me fez feliz. Os livros da minha estante são uma espécie de horcrux (mas versão do bem e não das trevas) que, se não guardam parte da alma do seu criador, pelo menos preservam a memória que tenho de cada leitura. Às vezes vou ao escritório e fico alguns minutos só a olhar para eles, tiro um ou outro, lembro-me de qualquer coisa sobre aquelas histórias ou sobre o momento em que os li, volto a guardar no sítio. Sinto-me feliz ali, perto deles. Penso que todos os leitores sentirão o mesmo.

Uma das minhas últimas paixões literárias é Maria Archer, escritora, antifascista.

Fiz praticamente toda a colecção Censura no Feminino do Público, em que se inclui Ida e Volta de Uma Caixa de Cigarros e Casa Sem Pão. Depois da leitura destes dois e enquanto procurava informações sobre a escritora, encontrei um curso online da Bertrand sobre Maria Archer e Judith Teixeira (também faz parte da colecção), dado pela Lúcia Vicente. Julgo ter sido este ou outro bastante semelhante. Fiquei ainda mais interessada em ler as restantes obras de Archer, principalmente Aristocratas, pelas apreciações ouvidas no curso. Consegui comprá-lo a um preço aceitável (há quem o venda entre os 30€ e os 60€, preços bem acima das capacidades de uma pobre proletária como eu). Li e fiquei arrebatada. Para mim é uma obra-prima. Foi o livro mais aclamado pela crítica literária, apesar de Archer já estar, na época, sob vigilância da censura. A componente auto-biográfica que lhe valeu a ostracização familiar e que chocou o círculo social onde até então se movia, acrescenta uma certa magia a toda a narrativa, principalmente se soubermos de antemão como foi a sua vida. Se o terminei de lágrimas nos olhos? Sim. 

Ao fim de alguns meses comprei Bato Às Portas da Vida, que iniciei sem grandes expectativas, pensando "a senhora tem de ter algum livro que não seja de excelência, certo?" Só que não. Num registo muito mais obscuro, sem as pitadas de humor que encontramos noutros trabalhos, esta leitura foi verdadeiramente emotiva e triste. Acompanhamos a narradora desde a infância até à idade adulta, atravessando diferentes períodos da história portuguesa. Maria Archer tem o dom de, de forma subliminar, através da sugestão ou da intuição, passar para o leitor a complexidade do meio em que a história decorre sem necessidade de desdobrar a acção. Tudo gira em torno da narradora e ela carrega às costas o peso da narrativa. Estas características aplicam-se não só a Bato Às Portas da Vida mas, na realidade, a todos os seus livros.

Decidi comprar as únicas edições "recentes" que existem no mercado: Ela É Apenas Mulher e Nada Lhe Será Perdoado. Apesar de serem bons livros não chegam ao patamar dos que mencionei anteriormente. E não sendo geniais valem bem a leitura e o desprazer que é olhar para as suas capas. São óptimas histórias.

Em Archer não há pedantismo e floreados, a escrita é directa e crua, sem perder a beleza. Não há páginas a mais nem a leitura se torna em momento algum aborrecida. Aparenta simplicidade, mas tendo em conta que viveu e publicou durante a ditadura, detinha a mestria de brincar com as palavras, escrevendo ao não escrever o que pretendia transmitir, driblando a censura*. Exemplo disso é a forma como, em Aristocratas, relata uma violação brutal sem de facto o fazer, envolvendo o mecanismo de escrita na caracterização da condição feminina da personagem (silenciada na escrita, silenciada na acção, silenciada na sociedade alvo de critica). O livro pensado e estruturado como um todo que se une e funciona em plena sintonia.

A forma como a escritora explora a ligação materna, o terror psicológico e abuso físico entre pais e filhos, a castração da existência alheia baseada no sexo, a hipocrisia e a falsidade da classe burguesa, a podridão que vai corroendo as ligações familiares e contagiando tudo à sua volta, a luta pela independência das mulheres e as idiossincrasias da sociedade portuguesa, é feito com tal mestria que a eleva a uma categoria literária na qual tenho muita dificuldade em encontrar uma escritora, portuguesa, que lhe seja equiparável. 

Tenho para ler A Primeira Vítima do DiaboHá-de Haver Uma Lei, dois livros de contos. O primeiro comprei no ano passado e fui deixando na estante. Daqui para a frente os restantes livros que me faltam são cada vez mais difíceis de adquirir, pela sua escassez no mercado alfarrabista. Não quero chegar ao ponto de não ter nenhum livro da autora para ler. Sei que é inevitável, cada leitor tem as suas manias e esta é uma das minhas. Eis que me lembrei este mês de procurar novamente e encontrei Há-de Haver Uma Lei. Inserir aqui o som de gritinhos histéricos. Irei então ler um deles brevemente. O outro ficará na estante até à próxima compra ou até me sentir capaz de aceitar que é o fim desta jornada.

E escrevo tudo isto para quê? Para que mais pessoas se interessem pela obra de Maria Archer. Para que se procure, se leia, se conheça, se publique. Peço aos deuses livreiros: que se publique Maria Archer, caraças! É essencial que a sua obra seja lida para que não fique para sempre esquecida. Aliás, quantas Marias não existirão na literatura portuguesa, apagadas e desconhecidas?

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Artigo sobre Maria Archer aqui e livro biográfico recente sobre a escritora aqui.

* Maria Archer teve vários livros censurados, desde cedo sinalizada pela PIDE e sofreu forte vigiância, principalmente após o seu envolvimento no MUD e apoio à campanha eleitoral de Henrique Galvão: "acompanhou, de perto, o julgamento do contestador da ditadura salazarista, capitão Henrique Carlos Galvão no Tribunal Militar de Santa Clara. Tendo-se proposto escrever um livro sobre o mesmo, vira a sua casa invadida pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) logo após o final do julgamento, em 1953. Viria a publicá-lo em 1959, no Brasil, sob o título Os Últimos Dias do Fascismo Português".

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Carta de Maria Archer ao Governo pedindo para que o seu livro não seja censurado. A carta completa pode ser consultada aqui.

13
Mar24

O Papel de Parede Amarelo de Charlotte Perkins Gilman

Cláudia F.

Muito interessante este O Papel de Parede Amarelo de Charlotte Gilman. De forma breve, mas bem conseguida, explora as perturbações de uma mulher cujo marido é também o seu médico. Tendo como diagnóstico um quadro de histeria depressiva, a cura passa por um período de afastamento social numa casa arrendada para o efeito e onde a narradora fica sob total controlo por parte do esposo. Isolada, sem ter com quem falar abertamente e privada de circular fora da casa, acaba por ficar obcecada pelo papel de parede amarelo do seu quarto.

É um conto realmente fascinante. Em poucas páginas a autora estabelece um clima de medo e loucura bem estruturado, lendo-se rapidamente e com um final que abre portas a múltiplas interpretações. Parece-me que há muita simbologia em torno do papel de parede, da figura feminina, de como a personagem (no seu delírio) é puxada para um mundo cheio de outras mulheres que lá habitam.

Mas que mulher foi Charlotte e que experiências marcaram não só a sua existência, como as suas obras? Nascida em 1860, filha de pai-que-abandona, vivia na pobreza. Por este motivo passava grandes temporadas com tias - mulheres politizadas, ligadas à escrita e educação. Era boa aluna, gostava de pintar e ler. Na escola manteve uma relação platónica com uma amiga, recusando o ideal romântico entre homem e mulher, até se casar em 1884. Um ano mais tarde é mãe. Casamento e maternidade intensificaram o seu estado depressivo (como não, certo?). E também ela, a par da protagonista do Papel, passa pelo "bed rest", nada mais nada menos que: deitada, sem esforços e excitações, vegetar na cama até novas ordens. Comprovou-se que este tratamento de eficaz tinha pouco. Com Charlotte quase a conduziu ao suicídio. Seguiu-se o divórcio. Volta a casar com um primo advogado. Envolve-se em várias associações políticas, utilizando a escrita para reforçar as suas preocupações sobre os direitos das mulheres, a figura feminina e a participação activa das mulheres na sociedade. Suicida-se após lhe ser diagnosticado cancro.

Aparentemente uma mulher para admirar não é? Só que não. A boa da Charlotte achava que os americanos negros eram um problema. E o que que era porreiro era agarrar nessa malta e fazer uma espécie de nova escravatura. Com certeza quando defendia o direito ao voto era o direito ao voto para mulheres brancas e instruídas. Não o resto da plebe. A eugenia estava em voga e sabemos bem como foi a primeira vaga feminista.

Ultrapassando que estamos a ler alguém racista, vale a leitura.

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