A Dama Oculta de Ethel Lina White
No outro dia passei na Gare do Oriente e decidi espreitar o mercado de livros que lá há. Encontrei estas edições da bookcover e comprei três: Cranford de Elizabeth Gaskell, A Dama Oculta de Ethel Lina White e Os Mistérios de Udolpho de Ann Radcliffe.
Li A Dama Oculta e a tradução é assustadoramente má. Senti que estava a ler uma mistura entre português e português-brasileiro. Algumas decisões linguísticas não me fizeram muito sentido pelo que não fiquei particularmente interessada em pegar num dos outros dois tão depressa, com receio que a tradução esteja ao mesmo (des)nível. Sei que são edições baratinhas mas não me parece que justifique. Enfim, não foi tão mau ao ponto de prejudicar gravemente a leitura. Nem se trata de uma língua ser superior a outra, não tenho nada contra edições em português-brasileiro desde que eu as escolha sabendo de tal característica. Cresci com as novelas da Globo e passei o livro todo a imaginar a Iris como uma personagem da novela da noite.
Ethel Lina White foi uma senhora inglesa que viveu entre 1876 e 1944, numa família de classe média-alta, tendo começado a escrever cedo e tornando-se um dos principais nomes da literatura policial/suspense da época. Em Portugal só se encontra este livro publicado, o que é uma pena.
Entramos no mundo de Iris Carr, uma jovem mulher, rica e órfã, que vive livremente, sem amarras, em permanente ócio com os seus amigos, sem casa própria, em viagens nos lugares mais exóticos e luxuosos da Europa. Assim a encontramos, meio aborrecida com os amigos, decidida a não os acompanhar e fazer a viagem de regresso a Londres sozinha. Nesta fase há a sensação de que os bons momentos estão prestes a desaparecer, já que todos os hospedes se estão a preparar para abandonar o hotel e regressar a Inglaterra de comboio. A premonição de que algo obscuro e estranho se aproxima, no decorrer de Iris se encontrar sozinha e por isso mesmo exposta a perigos, ela que está sempre rodeada de pessoas, é aqui explorado de forma magistral. Uma afronta social, a dama viajar sem acompanhante, extremamente ousado para a época e representativo da independência de Iris. O grosso da acção decorre no percurso de comboio, onde Iris se cruza com várias personagens, sendo uma delas uma velha senhora, tipo governanta, que segue para Inglaterra após trabalhar na casa de um grande senhor de um país de Leste. Acontece que Iris adormece e quando acorda não há sinal de tal senhora, tão pouco os restantes passageiros que partilham a cabine se recordam dela estar presente. É este o mistério. Quem é a senhora? E onde é que ela está?
Iris mergulha num estado psicótico tentando responder a estas questões com a ajuda (ou falta dela) de dois cavalheiros ligados à filosofia. Um desaparecimento num comboio que faz a ligação entre vários países ao longo de dias, praticamente sem paragens, de onde é impossível sair, ainda para mais sem que outras pessoas o notem.
Por ser mulher, jovem, solteira e viajar sozinha, Iris é vista como louca, perturbada, histérica. Completamente descredibilizada. Ameaças de prisão, hospitalização forçada num hospício a meio do caminho e uso de medicação para se manter calma. Ethel White caracteriza assim não só a figura feminina mas também como a sociedade a vê e julga, em 1936. A atmosfera opressiva em torno da personagem de Iris é não só realista como ainda plausível de acontecer nos dias de hoje.
Uma história bastante interessante e bem escrita, intensa e claustrofóbica, feminista, que deixa o leitor com a dúvida permanente de que partes são reais ou alucinação. Vamos lendo página após página envolvidos na confusão e dúvida de Iris, ansiando para que ela consiga escapar ilesa. Não é qualquer escritor que consegue trabalhar cenários fechados com mestria e Ethel White, felizmente, oferece-nos uma obra verdadeiramente inquietante.
Não vi a adaptação que Hitchcock fez em 1938 e que se tornou um clássico do cinema, além de ser amplamente reconhecido como um dos seus melhores trabalhos, portanto desconheço se o filme é fiel à obra ao ponto de não mascarar algumas alinhas que para mim são fulcrais para o entendimento da personagem de Iris Carr. Talvez seja uma boa escolha para ver agora durante a época natalícia.