A Semente do Figo Sagrado de Mohammad Rasoulof que é uma brutalidade de perder o fôlego e em simultâneo nos deixar com aquele sorriso parvinho no rosto, do tipo "caraças, isto é muito bom". Cinema a sério.
Não sei se Pequenas Coisas Como Estas funcionará tão bem para um publico que desconheça o livro de Claire Keegan. Os pormenores e as subtilezas que o olhar do leitor procura e encontra podem escapar aos menos familiarizados com a atmosfera típica da sua obra. O filme funciona como um complemento lindíssimo ao livro (que não é o meu favorito da escritora) e é uma óptima desculpa para ver mais uma vez Cillian Murphy e Emily Watson a serem os actores espectaculares a que já nos habituaram.
Porque não só de desilusões cinematográficas vive esta pessoa, eis alguns bons filmes que vi recentemente (entenda-se últimos meses) e que guardo na memória.
Oddity é um filme de terror e mistério muito bem conseguido. Tinha algumas expectativas por ter lido opiniões muito positivas, e estava com receio que fosse mais um filme meia-boca, mas desde o começo que me senti hiper focada em perceber todos os pormenores possíveis para desvendar o percurso que a história ia seguir. A cena mística por norma não me entusiasma mas gostei da forma como encaixou aqui.
Desde que Close estreou que ando com ele debaixo d'olho. Antecipando um filme mais demorado e com pouca acção, tinha de estar no modo certo para o conseguir apreciar. Numa aparente lentidão, vamos-nos focando na fotografia e nos pequenos pormenores e silencios que tanto dizem. É triste e belo na medida certa.
Não é preciso muito para me convencerem a ver um filme de Ken Loach. Se são criações suas com toda a certeza será uma boa jornada. Tanto The Old Oak quanto Sorry We Missed You não são filmes para nos mantermos na nossa bolha de conforto e alienação e é exactamente por isso que têm valor. É incrivel verificar a importação de ideias e linhas de pensamento e como as pessoas-tipo que alinham em certos discursos são as mesmas em todos os países. Em The Old Oak a acção decorre numa vilazinha inglesa mas podia ser num bairro em Portugal, a ignorância não tem fronteiras. Felizmente a bondade e empatia também não.
Sofri mais com Sorry We Missed You. É como um valente soco no estomâgo que nos desperta para a exploração laboral em torno de uma suposta independência - ser-se o próprio patrão - que nos vendem como se o empreendedorismo fosse um universo à parte do sistema capitalista e por isso menos danosa para o ser humano.
Em Red Rooms não há espaço para tédio. A atmosfera tensa e macabra nunca nos abandona, principalmente pela dúvida quase permanente que se infiltra no espectador sobre a figura de Kelly-Anne: quem é ela? Qual o motivo para seguir o julgamento? Está ela relacionada com os crimes cometidos? Envolvida no mundo obscuro da darkweb? O fascínio que o ser humano sente perante o universo criminoso (seja através da literatura policial, dos podcasts de true crime, filmes de terror, etc) faz parte da nossa natureza. Sentir a adrenalina do perigo sem estarmos efectivamente em perigo. Kelly-Anne ultrapassa o interesse saudável e demonstra-nos como um obsessão acaba por colocar em risco a sua própria existência.
Às vezes não resisto, sigo o burburinho e alinho no entusiasmo em torno de alguns filmes. As críticas eram amplamente positivas, a temática apelativa e um elenco que, não sendo o supra-sumo da representação, também não comprometia o que me parecia ser uma boa formula. Tinha tudo para me agradar, mas...
É mais uma amostra de cinema americano, mediano, que navega num tema cool sabendo que agradará a um certo publico e que será rotulado como se de movimento vanguardista se tratasse (a blasfémia que é escrever isto, deuses!). Por mais pertinente que seja, ao ser trabalhado de forma tão rasa e preguiçosa, perde qualquer impacto. Não promove reflexão, apresenta um problema e explora-o (porcamente). É o clássico "bater no molhado". O que já se falou sobre a ditadura da beleza nos últimos anos, como afecta a saúde mental, principalmente nas mulheres, que se esperava qualquer coisa melhor que estas quase duas horas absolutamente aborrecidas e cheias de lugares comuns. Sim, percebe-se as referências. Hoje em dia fala-se muito de referências. Certo, eu também acho piada ao ver referências a outros trabalhos e realizadores, mas caramba, carregar um filme às costas por este motivo é outro nível de idiotice.
Ponto positivo: o final. Os últimos 15 minutos são porreiros. Vale passar pelo tédio até lá chegar? Não sei. É uma versão Barbie no "terror". Tem uma agenda ideológica com a qual me identifico mas não vou considerar isto bom cinema nem que me paguem.