Mais leituras, menos tudo o resto. Ou quase.
Parece que a existência de uma biblioteca digital gratuita passou a ser a minha cena favorita de 2025. O tempo que ocupava a escrever, neste espaço, algumas opiniões e bitaites sobre as minhas leituras, passou a ser ocupada pela leitura de eBooks. Ofereceram-nos a BiblioLED e pronto, juntou-se o útil ao agradável. É ela a maior culpada por não andar muito activa por aqui. Vou deixar um resumo das leituras feitas em Janeiro e Fevereiro, com um achismo bem pequenito sobre cada uma delas:
A Parede de Marlen Haushofer
Fiquei encantada com o filme e pensei, sinceramente, que por conhecer o enredo e desfecho, o livro pudesse ter perdido alguma da sua magia. Pelo contrário, custou-me bastante por antecipar o sofrimento da personagem, que eu conhecia e temia.
Escrito em jeito de diário, em A Parede de Marlen Haushofer acompanhamos uma mulher que no seguimento de uma viagem, se vê isolada por uma parede transparente (tipo vidro sem ser vidro) na montanha, rodeada pela floresta, ribeiras e animais selvagens. É uma narrativa maravilhosa de sobrevivência e reconexão com a natureza, um regressar às bases da simplicidade da vida humana, quase um regredir para uma versão animal, no sentido das únicas preocupações serem sobreviver - arranjar comida, adaptar-se às estações do ano, proteger-se de predadores e da natureza em si. A sinopse aponta-o como um livro ecofeminista. Eu concordo. É um retrato profundamente humano sobre perder certas características que pensamos serem as que nos tornam humanos em contraste com os restantes seres ou organismos vivos que habitam neste planeta. O mistério em torno da parede (o que é, como surgiu) remete-nos para um mundo no limite de uma guerra nuclear (foi escrito durante a guerra fria) e eis que 2025 está bem próximo de 1963 - medo de uma guerra mundial, descrédito na sociedade (dita) desenvolvida, e por aí vai. Um favorito.
Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule de Édouard Louis
Há alguns anos que tenho os livros do Édouard Louis na lista de desejos e foi dos primeiros a ser lido pela BiblioLED. O que dizer? É uma obra brutalíssima que não nos leva a lugares bonitos. Da primeira à ultima página senti que estava a ler um livro de uma honestidade profunda e em certos momentos as semelhanças entre gerações e classes, em Portugal e em França, são muitas. Demasiadas, infelizmente. Talvez quem venha de um meio pobre, como o retratado e vivido pelo escritor, tenha um entendimento extra sobre Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule e por isso, especialmente por isso, confesso que o adorei de uma ponta à outra. Acompanhamos Eddy que vive num meio operário, ausente de estruturas - educacionais, familiares, sociais, económicas - que cedo se percebe que gosta de meninos. Cresce num meio que não o compreende, muito menos o aceita. Conhecemos a extensão dos maus tratos e negligência e de como o moldam, ou o empurram para fora do seu núcleo, permitindo-lhe ascender a algo melhor. Mais um favorito.
Amor Livre de Tessa Hadley
Olhem, às vezes decido-me a ler livros sem qualquer explicação coerente. Amor Livre de Tessa Hadley revelou-se um poço de clichés e lugares comuns. Uma história que até tinha capacidade para se tornar relevante, pela construção da personagem principal - uma dona de casa inglesa que foge com o amante, muito mais novo, abandonando o esposo e os filhos. A primeira parte manteve-me expectante: como iria a personagem lidar com o peso da pressão social, a culpa, etc., mas a partir do momento em que a fuga se concretiza e outras personagens ganham destaque (a filha, a paixão do marido, o filho escondido...). Ficou demasiado semelhante a uma novela da globo. Já vimos isto em outro lado qualquer. Um aborrecimento.
Pelican Girls de Julia Malye
Não costumo ler romances históricos mas tenho interesse no tema "colonização" e há alguns anos cruzei-me com informação, num podcast de true crime, sobre um estudo qualquer que se debruçava sobre a violência e como esta poderá ser perpetuada a nível social, e que fazia a ponte com o tipo de pessoas que estiveram na base da povoação de certos países que hoje em dia têm altos níveis de violência. Efectivamente sabemos que várias colónias europeias foram povoadas com presidiários, ex-condenados, criminosos. E foi por Pelican Girls tocar nestes tópicos, principalmente através de personagens femininas, que decidi lê-lo. Não encontrei um trabalho muito pormenorizado sobre o que mencionei. Gostei da construção das personagens, do seu crescimento e das suas histórias, de como se cruzam. Há um pouco de "vou encaixar aqui este tema porque fica bem". Algumas das opções da escritora parecem-me q.b. irrealistas e fora de pé. Foi uma leitura fácil que me entreteve.
A Gravidade das Circunstâncias de Marianne Fritz
Tive dificuldades com o inicio da leitura. Wilhelm e Wilhelmine, o esposo e a melhor amiga de Berta, têm nomes muito parecidos e consequentemente dei por mim baralhada a reler as frases anteriores para melhor compreender partes do texto. No geral achei a narrativa de A Gravidade das Circunstâncias confusa, ora repetitiva, ora apressada, quase sem espaço para interiorizar o que nos é descrito. Compreendo a relevância, contexto histórico e as nuances apontadas na análise presente no final do livro, só não foi bem o que antecipei. Não se tratando de uma má experiência também não foi memorável.
Tortura Branca de Narges Mohammadi
Um livro importante com diferentes finalidades. Em Tortura Branca reconhecemos a denúncia da ditadura iraniana baseada no fundamentalismo religioso e a perseguição feita às mulheres do país pelas palavras dessas mesmas mulheres, isoladas em complexos prisionais onde a tortura física e psicológica reina e perante a qual lutam pela liberdade e direitos humanos, sabendo que a sua resistência se traduz em novas prisões, falsos julgamentos e repressão, não só sobre si próprias mas também para os seus familiares. São relatos duros, que puxam à reflexão sobre feminismo e admiração pela capacidade de combate destas activistas. Um exemplo para todos nós.
A Falência de Júlia Lopes de Almeida
Muito agradada fiquei com a leitura de A Falência de Júlia Lopes de Almeida. Pouco ou nada tenho a apontar de negativo sobre esta leitura. Uma escrita fluida e acessível, fui passando as páginas sem dar conta do tempo. A história gira em torno da falência de um empresário português a vive no Brasil desde criança, tendo iniciado a vida na pobreza e conseguindo escalar na montanha social e chegar a homem rico. São várias personagens mas nem por isso a história se torna confusa. A caracterização das personagens e da época é uma delicia. Sem querer fui simpatizando com todas as figuras, torcendo para que se dessem bem na vida, mesmo sabendo que não seria dessa forma que a história se desenrolaria. Desde o início que conhecemos o desfecho, apenas nos deixamos conduzir em direcção à desgraça. Gostei mesmo muito.
A Ilha de Sukkwan de David Vann
Sou ouvinte do podcast "Livros da Piça" e recordo-me de na primeira temporada os anfitriões indicarem A Ilha de Caribou como um livro fixe. Fui pesquisar e efectivamente pareceu-me bastante interessante (até pela biografia do escritor, que se mistura com as suas obras num patamar não tão comum). Acontece que, um bocadinho trapalhona como por vezes sou, baralhei-me toda e coloquei A Ilha de Sukkwan na lista de leituras futuras, comprei e li. Depois percebi o erro. Enfim. Na minha opinião a primeira parte do livro é realmente muito forte, com uma atmosfera carregada de tensão e receio pelas decisões futuras dos protagonistas. A meio temos o clímax da narrativa e daí para à frente foi sempre a decair, ao ponto de começar a achar piada a cenas que supostamente seriam chocantes e terríveis, pelo simples facto de me parecerem acções completamente idiotas. Tentarei ler novamente o escritor, ainda assim, pois agradou-me muito a dureza daquela primeira metade.
Melhor Não Contar de Tatiana Salem Levy
Muitas pessoas já lerem este livro, tal como aconteceu com o Vista Chinesa, e eu fui atrás das massas e também o li. Não tenho nada de negativo a apontar. É uma escrita que me toca, que me envolve, que me faz sentido. Sou admiradora do trabalho de Tatiana Salem Levy, adoro a forma honesta como se debruça sobre as questões que explora, sobre o motivo por que escreve, como a realidade toca a ficção, a memória...Condensa em poucas páginas importantes reflexões. Melhor Não Contar é um favorito.
A Liberdade É Uma Luta Constante de Angela Davis
Evito ler certos livros pelo simples facto de não acrescentarem grande informação ao que já sei sobre determinado tópico, principalmente quando não existe desafio ou novidade. Estou a ler e a comprovar ideias que já tenho ou conheço. É uma perda da tempo. Não desfazendo, claro, a relevância de determinado escritor ou obra. Não me faz sentido ler uma repetição a cada página das mesmas questões e problemáticas, pois já contactei com tal realidade no passado. Assim, este livro implicou um esforço da minha parte. A Liberdade é Uma Luta Constante é acessível e fácil de acompanhar, aborda temas muito importantes como o capitalismo, o racismo, a causa palestiniana e pode servir de porta de entrada para quem começa a explorar o registo dos activistas destas causas, as suas intervenções e observações sociais.
E pronto, até à proxima (deve ser lá para Maio).