A Semente do Figo Sagrado de Mohammad Rasoulof que é uma brutalidade de perder o fôlego e em simultâneo nos deixar com aquele sorriso parvinho no rosto, do tipo "caraças, isto é muito bom". Cinema a sério.
Não sei se Pequenas Coisas Como Estas funcionará tão bem para um publico que desconheça o livro de Claire Keegan. Os pormenores e as subtilezas que o olhar do leitor procura e encontra podem escapar aos menos familiarizados com a atmosfera típica da sua obra. O filme funciona como um complemento lindíssimo ao livro (que não é o meu favorito da escritora) e é uma óptima desculpa para ver mais uma vez Cillian Murphy e Emily Watson a serem os actores espectaculares a que já nos habituaram.
Fernand Iveton foi um comunista argelino, filho de mãe espanhola e pai francês, que lutou pela independência da Argélia contra a ocupação colonial francesa e foi condenado à pena de morte, sendo assassinado em Fevereiro de 1957. É a história de Iveton, da relação com Hélène e da sua prisão que acompanhamos no livro de Joseph Andras.
No fim da Segunda Guerra Mundial existia nas sociedades colonizadas a esperança da independência e da retirada dos países ocupantes. Esta esperança era comum a todas as colónias de países europeus que haviam lutado contra o nazismo e deram origem a vários processos, mais ou menos violentos, de independência. A Argélia foi um desses países e o conflito um dos mais intelectualmente discutidos. A França, como força colonizadora, recusou a autonomia argelina, comprometendo os valores defendidos anos antes ao lutar contra a ocupação nazi. O pouco tempo passado entre a libertação da França (e da Europa) dos fascistas e a guerra contra a libertação dos países colonizados colocava à vista de todos a enorme contradição em que se encontravam as forças políticas governantes. Defendiam e iam contra os mais básicos princípios de autonomia e liberdade (e parece que não houve qualquer evolução, não é? Ainda nos debatemos com a mesma ausência de escrúpulos). Fruto desta incoerência, crescem idealistas como Fernand e outros resistentes, não só em solo ocupado mas também na própria França.
Fernand junta-se ao partido comunista argelino (PCA) aos 16 anos. Posteriormente alinha-se com a FNL e leva a cabo a acção pela qual é preso: colocar uma bomba na fábrica onde trabalhava. Colocar bombas é mau? É. Neste caso, era uma forma de luta e Fernand programou estrategicamente o local para a bomba e a hora da detonação de forma a que não atingisse qualquer trabalhador, antes afectasse a maquinaria e assim contribuísse para desequilibrar o sector económico. A bomba nem sequer explodiu. Fernand foi preso, torturado, julgado e assassinado para dar o exemplo, para denegrir a imagem dos combatentes da resistência e principalmente por ser considerado um traidor da pátria, um francês a lutar contra o seu povo.
Dificilmente não seria uma leitura satisfatória. Gostei particularmente da forma extremamente humana como Andras retrata Fernand, um homem sonhador e inteligente, fiel aos valores mais universais e também como, na época, as famílias dos resistentes acompanhavam as suas prisões e experimentavam a angustia da impotência perante uma condenação grotesca, violentíssima, às mãos do Estado.
A primeira leitura de 2025 não podia ter corrido melhor. Os Nossos Irmãos Feridos é um favorito que aconselho a todos. Talvez represente uma realidade que julgávamos ultrapassada e que, pela nossa própria inacção e ignorância, me parece cada vez mais próxima. Entenda-se: a da opressão e repressão.
O livro serviu de inspiração ao filme De Nos Frères Blessés, de 2020, que não tive ainda a oportunidade de ver. Artigo sobre esta adaptação aqui.
Sei que estas publicações são por norma feitas em Janeiro, mas eu nunca estou encaixada no ritmo da maioria: apresento (a quem? não importa) a lista das minhas leituras favoritas do ano 2024. Li cerca de 57 livros e escrevi a minha opinião sobre todos eles neste blog - salvo erro, posso ter falhado um ou outro. Utilizo o goodreads, onde todos os anos estabeleço uma meta de leitura que por norma ultrapasso (com excepção do ano em que fui mãe e li 2 livros). Gosto da sensação de ainda ler algumas obras após atingir o objectivo a que me propus. Eu, que não faço desporto, sinto-me como os atletas se devem sentir depois de passar a meta e ainda terem capacidade fisica para correr mais um bocadinho. Foi um ano de várias leituras medianas, umas quantas mázinhas e outras que nem me dei ao trabalho de concluir, abandonando, e 19 livros maravilhosos que têm um lugar especial na estante (os que não foram lidos através da biblioteca) e no coração.
Os Mutilados - Hermann Ungar
Acolher - Claire Keegan
Um Homem Em Declínio - Osamu Dazai
A Partir de Uma História Verdadeira - Delphine de Vigan
Um Amor - Sara Mesa
Puro - Nara Vidal
A Solidão dos Números Primos - Paolo Giordano
O Lado Negro da Mente: Histórias Reais da minha Vida como Psicóloga Forense - Kerry Daynes
Vista Chinesa - Tatiana Salem Levy
Roma, Temos Um Problema - João Francisco Gomes
Desaparecer na Escuridão - Michelle McNamara
Out - Uma Saída - Natsuo Kirino
A Uma Hora Tão Tardia - Claire Keegan
Mrs. Caliban - Rachel Ingalls
O Quinto Filho - Doris Lessing
Um Artista No Mundo Transitório - Kazuo Ishiguro
Mrs. March - Virginia Feito
Gente Comum: Uma História da PIDE - Aurora Rodrigues
A Idade Frágil - Donatella di Pietrantonio
Parece-me uma boa colheita! Vamos ver como corre este ano, se julgar pelas leituras de Janeiro vou bem lançada.
Algumas leituras parecem, de alguma forma e sabe-se lá porquê, estar predestinadas a beirar a perfeição. Já me tinha cruzado com A Idade Frágil, provavelmente quando pesquisava por pré-lançamentos interessantes. Daí que quando o vi numa livraria, mesmo ali uns dias antes do natal, decidi que era um bom acrescento aos outros livros que havia comprado para oferecer a mim própria, e acabou mesmo por ser o segundo da pilha a ser lido ainda em Dezembro.
Começo já por me repetir mas isto tira-me do sério: parem de comparar escritores nas capas dos livros. É um pesadelo que parece não ter fim. Induz as pessoas em erro, cria expectativas que não deviam existir em torno da escrita, da história e das personagens, condiciona os leitores a procurar ecos e semelhanças, neste caso da Ferrante, num livro que não tem qualquer marca da escritora, além de limitar a Pietrantonio, como se a sua obra não valesse por si só, precisando de uma muleta literária para vender. E não precisa, é um bom livro. Obviamente que em momento algum no decorrer da leitura senti qualquer proximidade com as obras da Ferrante (que adoro) compreendendo, por isso, quem vai à procura dela nestas páginas e se sente defraudado.
Ultrapassando esta questão, A Idade Frágil tornou-se o último favorito de 2024. O ser baseado num crime real que ocorreu em Abruzzo, cidade onde a escritora cresceu, foi meio caminho para me manter muito curiosa. Tentei vasculhar e procurar mais informações complementares do crime de 1997 mas só me cruzei com artigos em italiano, língua que não domino, por isso não sei onde termina a ficção e começa o realismo no relato do homicídio das duas jovens e na fuga da rapariga que sobreviveu. No livro, Lúcia foi uma grande amiga da sobrevivente enquanto criança e adolescente, pelo que testemunhou a atmosfera em torno do desaparecimento e desenrolar da investigação. Anos mais tarde, adulta e mãe, é confrontada com paralelismos e ecos de um mundo ainda tão agressivo contra as mulheres, através da sua filha Amanda. A acção no presente decorre no pico da pandemia, Amanda desiste da universidade em Milão e retorna a casa, na aldeia. Volta uma jovem diferente, fechada e deprimida. A escolha de manter o leitor em dúvida sobre a violência exercida contra Amanda e nunca desvendar o que de facto ocorreu, evitando a exploração gratuita do acto, foi uma decisão inteligente, visto que já estamos a acompanhar o crime ocorrido no passado pelos olhos de Lúcia. A escritora conseguiu estabelecer um bom ritmo e uma caracterização suficientemente realista para me fazer sentir que as personagens existiam, tal como a história ali relatada. Gostei da forma como os silêncios se transformam em diálogos e as ausências (de pessoas, de emoções) ocupam espaço na narrativa. A escrita é directa e simples, numa história que não sendo de uma complexidade enorme, trabalha temas que me agradam como a questão do medo, da violência de género, da relação mãe-filha.
Dispensava a questão em torno da venda do terreno e da filha que se revela activista, mas enfim, não se pode ter tudo. É uma obra-prima? Não o diria. Mas li em duas tardes, completamente concentrada e envolvida na história que Donatella me apresentou e isso é imensamente satisfatório. Irei ler outras obras da escritora no futuro.
No natal presenteei-me com livros da Antígona, aproveitando uma baixa de preços que a editora aplicou umas semanas antes. Não é que seja uma novidade oferecer-me livros nessa época, nunca tinha era ocorrido serem todos da mesma editora. O livro A Baleia foi o primeiro a ser lido e não podia ter corrido melhor.
Nas cerca de 40 páginas acompanhamos Pierre e Odile numa caminhada, um passeio até à praia para verem a carcaça de uma beleia branca que deu à costa e ficou a decompor-se na areia. Perturbador? Fascinante? Profético? Que significado retiram as duas personagens da morte daquele gigante dos mares? É uma bonita e dura reflexão sobre a morte, o ciclo que se fecha, ao qual nenhum ser escapa. Foi uma leitura muito satisfatória.
Entretanto, ao procurar mais informações sobre o escritor (que faleceu aos 49 anos vítima de tuberculose, tendo passado os últimos anos em sanatórios e quartos alugados, de onde aliás terá escrito grande parte da sua obra) cruzei-me com uma curta baseada neste seu texto. Enquanto lia pensava que daria um belo filme, o ambiente em que as personagens se movem é bastante cinematografico e é uma pena que a curta não esteja disponível, mas a julgar pelas fotografias creio ter sido uma adaptação bem feita. Aguardo com esperança que talvez vá parar ao youtube, um dia.